Por Contardo Calligaris
Seis anos atrás, um filme prodigioso, "Magnólia", de Paul Thomas Anderson, produziu em mim um efeito parecido. Quem assistiu a "Magnólia" deve se lembrar do momento em que todos os personagens, separada e simultaneamente (cada um em seu lugar trágico), cantam uma mesma música, que é uma espécie de hino ao caráter inelutável da vida: "...and it is not going to stop, till you wisen up..." (e não vai parar até que você crie juízo). É um exemplo perfeito da "alegria" melancólica que é fruto da aceitação do mundo como ele é. Pois bem, está em pré-estréia em São Paulo "Crash - No Limite". É o primeiro filme de Paul Haggis, que foi roteirista de "Menina de Ouro". Quando o filme saiu nos Estados Unidos, no ano passado, a crítica (elogiosa) salientou a apresentação brutal da difícil convivência de etnias diferentes na sociedade americana. De fato, o filme é um soco no estômago de quem acredita nos efeitos lenitivos do politicamente correto: latinos, negros, brancos e orientais se agridem e se insultam pelas ruas de Los Angeles. Parece fracassar a esperança (americana e, em geral, iluminista) de um caldeirão em que as diferenças étnicas, culturais e sociais seriam quase irrelevantes e prevaleceria o sentimento de pertencermos todos à mesma espécie. Mas dizer que o filme de Haggis mostra a morte do sonho moderno da convivência dos diferentes seria, no mínimo, ingênuo. Ao contrário, o milagre de "Crash" (choque ou batida) é que, no filme, a feiúra e a loucura do cotidiano, assim como o próprio choque das diferenças, nos aparecem como provas de nossa humanidade comum. Pensando bem, aliás, a única versão possível do sonho moderno talvez seja esta: não a paz e o respeito recíproco, mas a descoberta de um lote de misérias e incertezas que enxergamos nos outros porque, no fundo, são sempre parecidas com as da gente. O sonho moderno não se realiza numa fanfarra de nobres idéias compartilhadas, mas na ternura de nosso olhar diante da imperfeição do mundo, ou seja, de todos nós. Um policial abusa de sua autoridade para enfiar a mão entre as pernas de uma mulher na hora de revistá-la; o mesmo policial pode arriscar a vida para salvar a dita mulher do fogo. Um jovem bem intencionado é horrorizado pelo preconceito racial, mas (reflexo de defesa) é o primeiro a atirar num negro que enfia a mão no bolso. Um assaltante de carros pode atropelar um chinês mas pode também soltar um carregamento inteiro de imigrantes ilegais fadados ao trabalho escravo. A arrogância de uma dama de classe "A" acaba quando ela cai na escada de casa e o único abraço que ela encontra é o de sua empregada. A arrogância de um guardião da lei acaba quando ele assiste o pai doente no meio da noite. E por aí vai. Isto é, lá vamos nós: meio heróis, meio pilantras, capazes do pior e do melhor. Assim é a vida, no tom certo. Não perca "Crash - No Limite" sob nenhum pretexto.
quinta-feira, outubro 20, 2005
sexta-feira, outubro 14, 2005
Lyrics
"Wake Up"
Arcade Fire
Somethin' - filled up - my heart - with nothin' - someone - told me
not to cry. - but now that - i'm older - my heart's - colder - and i
can - see that it's a lie.
children - wake up - hold your - mistake up - before they - turn the
summer into dust. - if the children - don't grow up - our bodies get
bigger. but - our hearts get torn up - we're just - a million little
gods causing rain storms - turning every good thing to rust. - i guess
we'll just have to adjust.
with my lighning bolts a-glowin' i can see where i am going to be when
the reaper he reaches and touches my hand.
with my lighning bolts a-glowin' i can see where i am goin'.
better look out below!
Arcade Fire
Somethin' - filled up - my heart - with nothin' - someone - told me
not to cry. - but now that - i'm older - my heart's - colder - and i
can - see that it's a lie.
children - wake up - hold your - mistake up - before they - turn the
summer into dust. - if the children - don't grow up - our bodies get
bigger. but - our hearts get torn up - we're just - a million little
gods causing rain storms - turning every good thing to rust. - i guess
we'll just have to adjust.
with my lighning bolts a-glowin' i can see where i am going to be when
the reaper he reaches and touches my hand.
with my lighning bolts a-glowin' i can see where i am goin'.
better look out below!
terça-feira, outubro 11, 2005
Querido Diário
Ontem não havia nada de bom na tv, mas fiquei zapeando até perder a paciência e mudar para o computador.Naveguei um pouco, mas decidi ir dormir.Tenho essa mania de adiar as coisas como se o amanhã sempre fosse estar lá. Bia dormiu comigo e acabei dormindo mal, pois ela se mexe muito e eu tenho o sono leve demais.Quando o sol nasceu, levantei para ligar o ventilador.Aproveitei para ir ao banheiro e abri logo a porta da cozinha para Rosário.Minha rua é muito barulhenta e estão fazendo uma reforma num prédio próximo.Os ônibus e vans passam toda hora. O pior são os caras gritando os destinos das vans.Às 8 horas, levantei sonolenta para fazer o café.Depois fui para o clube fazer minha musculação.Pensava no post da Denise sobre a Kylie Minogue.Resolvi não prestar atenção na música que estava tocando.Ainda bem que hoje eles não colocaram aquela fita com J Quest,Claudinho e Bochecha e Tim Maia.Nada contra esse último, mas ninguém aguenta mais essas mesmas músicas.Pensei em gravar uma fita que estimule as pessoas a fazer exercícios. Vamos ver, o que poderia colocar que agradasse gregos e troianos? Nitzerebb,front 242,Depeche Mode, Style Council.Vou tentar fazer uam compilação.Any suggestions?
segunda-feira, outubro 10, 2005
As Dores do Crescimento
Por Dulce Quental
Provas de amor são fundamentais. Carinhos diários, declarações explícitas. São como água, luz e sono. Precisamos de confirmação: somos amados ou não? Somos passíveis de sermos amados ou nos fecharemos como ostras incrustadas em pérolas perdidas no fundo do mar? Nem o escafandrista virá nos salvar quando a civilização submergir - como o Pinóquio do Inteligência Artificial, de Kubrick e Spielberg - ficaremos eternamente congelados à espera da estrela azul que nos dirá, o que precisaremos sempre ouvir: somos desejados e amados pela grande mãe terra.
E se isso não acontecer e provas de amor não chegarem? A cada dia minguaremos, cada vez mais tristes, até o dia em que, trancados em nós mesmos, adoeceremos, num oceano de incertezas sem fim. Pois assim funciona o sabotador. Pronto para atacar à sombra da primeira dúvida. Aquela idéia para uma nova canção? Desprezamos. Não é boa, o suficiente. O amigo que ligou pra conversar? Sob as lentes do nosso novo estado de humor, não é capaz de compreender o que estamos passando. Pois nos sentimos sozinhos, isolados e desimportantes à luz do mundo.
Na verdade o que aconteceu é que fomos feridos. A fonte vital que alimenta o nosso entusiasmo foi atingida. Enfraquecidos na nossa autoconfiança acreditamos no ouro dos tolos. Estamos à mercê do mundo e do que ele diz de nós. No momento não há nada a fazer. Só nos resta lamber as feridas e dar tempo ao tempo, pois um silêncio entre nós e o mundo há de se perpetuar por algumas semanas até que descubramos como nos reerguer de novo.
Mas como isso acontece? Por que não conseguimos nos proteger da agressão/omissão do mundo e das pessoas? Será que já não vivemos tempo suficiente para aprendermos o fundamental? Nem sempre as coisas saem do jeito que esperamos. Mesmo assim aprendemos a seguir em frente. Mas por que nem sempre funciona ? Por que às vezes nada funciona?
Dizem que certas doenças demoram anos pra se instalar dentro de nós. Elas trabalham em silencio, nas lacunas que nós não preenchemos. Como sujeira debaixo de um tapete que não limpamos. Até que um dia, como o monstro do lago Ness, atacam, nos surpreendendo com seu golpe mortal.
Tendo a achar que sofremos a vida inteira dos mesmos males. Nossos maiores medos estão sempre voltando a nos aterrorizar. Velhos medos com novas máscaras. Cabe a nós criarmos novas porções de cura, cada vez mais mágicas e rápidas a fim de desmascarar esse nosso vilão de estimação.
Precisamos aprender a gerar amor quando ele não vem de fora. Como artistas, somos processadores de vida, geradores de mudanças, agentes de transformação, dentro do mundo real, mas principalmente do mundo invisível. Somos magos, alquimistas, surfistas de idéias e sinais. Com nossas tintas e tijolos de papel erguemos catedrais onde antes só havia vazio. Até ficarem prontas, somente nós enxergamos, e talvez alguns aliados e amigos, que acreditam também que sonhos podem ser reais. Mas enquanto isso, somos os seres mais solitários do mundo.
Meio Dom Quixotes e Sanchos Panças, trabalhamos com nossos moinhos de vento, contando formigas e fuxicando caixinhas de recordações. Como crianças na Terra do Nunca reaprendemos a nos desprender e a brincar. Pois esse é o nosso oficio: guardar a inocência do mundo. Mas como curar uma ferida profunda? Parece que quanto mais olhamos pra ela, maior fica. Descobri muito recentemente que dar amor, atenção e carinho para alguém próximo, ou mesmo desconhecido, é um meio de cura muito eficaz. Talvez agora eu possa entender a vocação de certas pessoas que passam a vida em seus consultórios escutando a dor alheia. Só quem foi ferido profundamente pode curar alguém. A compaixão é um sentimento que gera um bem estar para todos os envolvidos.
Ajudar alguém é ajudar a si próprio através do outro. Pois não somos tão diferentes assim. Estamos todos sob o mesmo abandono universal, sob o mesmo fogo cruzado, sob a mira da mesma bala perdida ou do mesmo homem-bomba. Podemos explodir a qualquer momento. Podemos ser assaltados, roubados, traídos, excluídos e porque não também amados. Mas para tanto e tal precisamos correr riscos. E correr riscos muitas vezes significa estar vulnerável, inclusive para experiências ruins. Pois não há como estar aberto para a vida sem que não sejamos atingidos por ela.
Ser atingido muitas vezes é ser mal interpretado. Ser subestimado. Ser julgado e condenado. Mas e daí. Esse é o preço de quem ama a liberdade. Nietzche dizia que "quem ama o abismo precisa ter asas". O nosso problema é que saltamos quase sempre sem rede de proteção. "Salte e a rede aparecerá", "a providência age com quem tem coragem", dizia Goethe, "pois a coragem possui algo de genialidade intrínseca".
Nem sempre. Às vezes um charuto é apenas um charuto e nada mais. Não há interpretações. Nem compensações. Só conseqüência. Fatos e fins. E assim quebramos a cara, perdemos as apostas e ganhamos mechas brancas de maturidade.
"Naquela manhã Suzan não viu a cara do sol. Se tivesse saído para dar um dos seus passeios matinais talvez tivesse descoberto uma mina de ouro há poucos metros do banco onde costuma se sentar. Sir Eduard e seu cão passeavam...". E assim passou a vida de Suzan, que nunca se casou, nem conheceu o "amor maior".
Fincar bandeiras solitárias em áreas de risco. Um trabalho de resistência humana. Ser capaz de morrer por uma idéia. Ser capaz de abrir mão de confortos burgueses. Aprender a viver com pouco. Somente o essencial. Precisamos de uma nova ideologia para o caos das relações nos dias de hoje.
"Se tudo caiu, que tudo caia", me lembro bem dessa letra do Antonio Cícero, cantada pela Marina. Está na hora de juntar os caquinhos. Restos de esperança. Pitadas de boa vontade. Muito descanso e carinho de quem vale de verdade. As palavras com sua alegria voltarão quando você menos esperar. Como um dia de sol depois da chuva. Você vai acordar e dizer: "Foi só uma gripe, hoje estou me sentindo ótima!"
Dulce Quental é cantora e letrista.
Provas de amor são fundamentais. Carinhos diários, declarações explícitas. São como água, luz e sono. Precisamos de confirmação: somos amados ou não? Somos passíveis de sermos amados ou nos fecharemos como ostras incrustadas em pérolas perdidas no fundo do mar? Nem o escafandrista virá nos salvar quando a civilização submergir - como o Pinóquio do Inteligência Artificial, de Kubrick e Spielberg - ficaremos eternamente congelados à espera da estrela azul que nos dirá, o que precisaremos sempre ouvir: somos desejados e amados pela grande mãe terra.
E se isso não acontecer e provas de amor não chegarem? A cada dia minguaremos, cada vez mais tristes, até o dia em que, trancados em nós mesmos, adoeceremos, num oceano de incertezas sem fim. Pois assim funciona o sabotador. Pronto para atacar à sombra da primeira dúvida. Aquela idéia para uma nova canção? Desprezamos. Não é boa, o suficiente. O amigo que ligou pra conversar? Sob as lentes do nosso novo estado de humor, não é capaz de compreender o que estamos passando. Pois nos sentimos sozinhos, isolados e desimportantes à luz do mundo.
Na verdade o que aconteceu é que fomos feridos. A fonte vital que alimenta o nosso entusiasmo foi atingida. Enfraquecidos na nossa autoconfiança acreditamos no ouro dos tolos. Estamos à mercê do mundo e do que ele diz de nós. No momento não há nada a fazer. Só nos resta lamber as feridas e dar tempo ao tempo, pois um silêncio entre nós e o mundo há de se perpetuar por algumas semanas até que descubramos como nos reerguer de novo.
Mas como isso acontece? Por que não conseguimos nos proteger da agressão/omissão do mundo e das pessoas? Será que já não vivemos tempo suficiente para aprendermos o fundamental? Nem sempre as coisas saem do jeito que esperamos. Mesmo assim aprendemos a seguir em frente. Mas por que nem sempre funciona ? Por que às vezes nada funciona?
Dizem que certas doenças demoram anos pra se instalar dentro de nós. Elas trabalham em silencio, nas lacunas que nós não preenchemos. Como sujeira debaixo de um tapete que não limpamos. Até que um dia, como o monstro do lago Ness, atacam, nos surpreendendo com seu golpe mortal.
Tendo a achar que sofremos a vida inteira dos mesmos males. Nossos maiores medos estão sempre voltando a nos aterrorizar. Velhos medos com novas máscaras. Cabe a nós criarmos novas porções de cura, cada vez mais mágicas e rápidas a fim de desmascarar esse nosso vilão de estimação.
Precisamos aprender a gerar amor quando ele não vem de fora. Como artistas, somos processadores de vida, geradores de mudanças, agentes de transformação, dentro do mundo real, mas principalmente do mundo invisível. Somos magos, alquimistas, surfistas de idéias e sinais. Com nossas tintas e tijolos de papel erguemos catedrais onde antes só havia vazio. Até ficarem prontas, somente nós enxergamos, e talvez alguns aliados e amigos, que acreditam também que sonhos podem ser reais. Mas enquanto isso, somos os seres mais solitários do mundo.
Meio Dom Quixotes e Sanchos Panças, trabalhamos com nossos moinhos de vento, contando formigas e fuxicando caixinhas de recordações. Como crianças na Terra do Nunca reaprendemos a nos desprender e a brincar. Pois esse é o nosso oficio: guardar a inocência do mundo. Mas como curar uma ferida profunda? Parece que quanto mais olhamos pra ela, maior fica. Descobri muito recentemente que dar amor, atenção e carinho para alguém próximo, ou mesmo desconhecido, é um meio de cura muito eficaz. Talvez agora eu possa entender a vocação de certas pessoas que passam a vida em seus consultórios escutando a dor alheia. Só quem foi ferido profundamente pode curar alguém. A compaixão é um sentimento que gera um bem estar para todos os envolvidos.
Ajudar alguém é ajudar a si próprio através do outro. Pois não somos tão diferentes assim. Estamos todos sob o mesmo abandono universal, sob o mesmo fogo cruzado, sob a mira da mesma bala perdida ou do mesmo homem-bomba. Podemos explodir a qualquer momento. Podemos ser assaltados, roubados, traídos, excluídos e porque não também amados. Mas para tanto e tal precisamos correr riscos. E correr riscos muitas vezes significa estar vulnerável, inclusive para experiências ruins. Pois não há como estar aberto para a vida sem que não sejamos atingidos por ela.
Ser atingido muitas vezes é ser mal interpretado. Ser subestimado. Ser julgado e condenado. Mas e daí. Esse é o preço de quem ama a liberdade. Nietzche dizia que "quem ama o abismo precisa ter asas". O nosso problema é que saltamos quase sempre sem rede de proteção. "Salte e a rede aparecerá", "a providência age com quem tem coragem", dizia Goethe, "pois a coragem possui algo de genialidade intrínseca".
Nem sempre. Às vezes um charuto é apenas um charuto e nada mais. Não há interpretações. Nem compensações. Só conseqüência. Fatos e fins. E assim quebramos a cara, perdemos as apostas e ganhamos mechas brancas de maturidade.
"Naquela manhã Suzan não viu a cara do sol. Se tivesse saído para dar um dos seus passeios matinais talvez tivesse descoberto uma mina de ouro há poucos metros do banco onde costuma se sentar. Sir Eduard e seu cão passeavam...". E assim passou a vida de Suzan, que nunca se casou, nem conheceu o "amor maior".
Fincar bandeiras solitárias em áreas de risco. Um trabalho de resistência humana. Ser capaz de morrer por uma idéia. Ser capaz de abrir mão de confortos burgueses. Aprender a viver com pouco. Somente o essencial. Precisamos de uma nova ideologia para o caos das relações nos dias de hoje.
"Se tudo caiu, que tudo caia", me lembro bem dessa letra do Antonio Cícero, cantada pela Marina. Está na hora de juntar os caquinhos. Restos de esperança. Pitadas de boa vontade. Muito descanso e carinho de quem vale de verdade. As palavras com sua alegria voltarão quando você menos esperar. Como um dia de sol depois da chuva. Você vai acordar e dizer: "Foi só uma gripe, hoje estou me sentindo ótima!"
Dulce Quental é cantora e letrista.
domingo, outubro 02, 2005
Ser mãe é padecer no paraíso...
Depois de mais de uma semana de chuva, o sol brilhou na sexta-feira e o sábado também amanheceu ensolarado.Mas não deu para aproveitar.Até tinha sido chamada pra um churrasco na casa de amigos,entretanto Bia acordou indisposta, com sintomas de uma gripe e logo estava com febre.Lá fui eu à farmácia, ao supermercado, me dividindo entre a cozinha e o quarto.À noite a febre chegou aos 39°.Hoje pensei que ela fosse acordar um pouco melhor.Não quis tomar a vitamina e nem o pão que preparei.Fiz uma sopa de legumes para o almoço, mas ela não quis comer e ainda derramou o suco na sala.A febre voltou, ela adormeceu, acordou e correu para o banheiro para vomitar.Lá vou eu limpar tudo.Ela agora está dormindo, o céu está nublado e estou cansada.Realmente devia ter feito medicina ou enfermagem, sei lá.Nunca fui de estudar muito.
sábado, setembro 24, 2005
sexta-feira, setembro 23, 2005
Do you believe in God?
Estamos procurando uma nova escola para Bia.Como vamos nos mudar para o Rio no ano que vem e pensamos morar em Copacabana, a primeira opção foi o colégio Sagrado Coração de Maria. Bia falou que não quer estudar em um colégio católico.Nós a batizamos, não sei bem porquê, já que nem eu ou meu marido seguimos qualquer religião, mas fomos batizados.Claro que ela era muito pequena para saber o que estava se passando.Ela nunca assistiu nenhuma missa,embora já tenhamos entrado em várias igrejas.Nunca me preocupei em ensinar religião para ela, então creio que é normal essa falta de curiosidade pelo assunto. Quando minha mãe ou minha tia tentou ensinar algumas orações para ela, Bia não quis nem saber, ficou até mesmo aborrecida com o assunto.Algumas amigas da escola estão fazendo catequese, para se preparar para primeira comunhão e ela disse que "isso é besteira".Normalmente as crianças se mostram crédulas nesses assuntos e só mais tarde ficam céticas, como eu.Então como vou querer que minha filha acredite em algo que não acredito? Só me espanta um pouco, ela tão nova, já ter essa convicção.
Como dizia John Lennon, God is a concept by which we measure our pain.O homem inventou Deus para suportar o fardo de sua existência sem propósito.
Estamos procurando uma nova escola para Bia.Como vamos nos mudar para o Rio no ano que vem e pensamos morar em Copacabana, a primeira opção foi o colégio Sagrado Coração de Maria. Bia falou que não quer estudar em um colégio católico.Nós a batizamos, não sei bem porquê, já que nem eu ou meu marido seguimos qualquer religião, mas fomos batizados.Claro que ela era muito pequena para saber o que estava se passando.Ela nunca assistiu nenhuma missa,embora já tenhamos entrado em várias igrejas.Nunca me preocupei em ensinar religião para ela, então creio que é normal essa falta de curiosidade pelo assunto. Quando minha mãe ou minha tia tentou ensinar algumas orações para ela, Bia não quis nem saber, ficou até mesmo aborrecida com o assunto.Algumas amigas da escola estão fazendo catequese, para se preparar para primeira comunhão e ela disse que "isso é besteira".Normalmente as crianças se mostram crédulas nesses assuntos e só mais tarde ficam céticas, como eu.Então como vou querer que minha filha acredite em algo que não acredito? Só me espanta um pouco, ela tão nova, já ter essa convicção.
Como dizia John Lennon, God is a concept by which we measure our pain.O homem inventou Deus para suportar o fardo de sua existência sem propósito.
quarta-feira, setembro 14, 2005

Olhando as fotos da viagem, percebo que poderíamos ter tirado muitas mais.
Chegamos à Bariloche no sábado, dia 03, por volta do meio-dia.O vôo estava lotado e ficamos na última fileira do avião, não tinha nem janela!Ficamos hospedados no centro, numa hosteria chamada Casita Suiza, bem simpática. Tinha internet de graça,tv à cabo e secador de cabelo.Como estávamos com fome, fomos almoçar numa trattoria italiana chamada Familia Bianchi.Cada um, escolheu sua massa e tomamos um garrafa de vinho tinto.Curioso é que nunca tinha suco de uva, era sempre laranja, então Bia teve que tomar água a viagem inteira.Depois do almoço, acho que acabamos perdendo tempo.Já deviamos ter saído para fazer algum passeio, pois ainda tinha sol.Passeamos pelo Lago Nahuel Huapi, fomos até o Puerto San Carlos ver o pessoal patinando num pequeno rinque de patinação.Tiramos mais algumas fotos no Centro Cívico, onde estavam os cães da raça São Bernardo.2 pesos para tirar uma foto.Compramos chocolate na Fenoglio na movimentada rua Bartolome Mitre. Decidimos marcar a primeira excursão para o dia seguinte: Cerro Tronador.Estava chuviscando, um frio de 4°C. Alugamos roupa,luvas e botas para a neve.Fomos dormir cedo. No domingo de manhã, o micro ônibus e a nossa guia - muito sorridente e cordial - veio nos apanhar às 9h.O Cerro Tronador fica à apenas 85km do centro, mas o passeio dura o dia inteiro porque vamos devagar e paramos várias vezes. Para pagar o pedágio, para vermos as trutas no lago - e claro que tinha um pequeno café vendendo chá de rosa mosqueta e outras coisinhas - e mais à frente, o mirador do Lago Mascardi, mencionado no post abaixo.Então já está na hora do almoço e paramos num pequeno restaurante de um camping.Acabei pedindo um Choripan que tomei com una copa de tinto, por supuesto. Finalmente chegamos bem próximo ao Cerro Tronador. Tivemos que descer um pouco antes, pois o micro ônibus não subia, e seguir à pé.Nem estava tão frio e estávamos ansiosos para pisar na neve.Call me a fool but it was awesome.It's such a beautiful place. Brincamos na neve feito crianças.Eu e Bia jogamos bola de neve uma na outra.Mas é difícil fazer um boneco de neve.Quando nos demos conta, já estava na hora de voltar. De volta para a cidade, jantamos no restaurante Familia Weiss. E por hoje é só, porque me cansei.
terça-feira, setembro 13, 2005
domingo, agosto 28, 2005
Assim falou Martha Medeiros:
Seja através de clichês cinematográficos ou de prosa da mais alta qualidade, a verdade universal é que só o amor nos humaniza de fato. Pode-se gostar ou não desta idéia, ela pode ser claustrofóbica para uns e libertária para outros, mas o mundo dá voltas e voltas e chega sempre neste ponto, o de que o amor é mais importante que o dinheiro, que o sexo, que a beleza, ainda que tudo isso seja ótimo também. Mesmo com uma vida recheada de acontecimentos, se estivermos ocos, não veremos muita graça em nada. Poderemos até parecer independentes, inteligentes, modernos, sofisticados... mas só o amor responde às nossas indagações — indagações que podem também ser divertidas, inspiradoras... mas ainda irrespondíveis sem amor. Sem amor, neca. Sem amor, babaus. Sem amor, o resto é consolo.
Vale amor por um cachorro, por um projeto, por si mesmo? Prefiro acreditar que sim, que o amor sem conotação romântica também pode justificar uma existência, que ele pode tornar uma pessoa, senão plena, ao menos leve e alegre, sem necessidade de buscas intermináveis. Mas não é isso que nos dizem livros, filmes, músicas, poemas. Se não amamos alguém, é uma vida vivida sem integralidade. Pode até ser uma vida boa, mas não uma vida que valha a pena ser contada.
Diante desta sentença, fazer o quê: é ele que desejamos, é por ele que procuramos, é nele que queremos tropeçar, nem que seja aos 90 anos, nem que seja quando estivermos secos depois de fazer tanta burrada, nem que seja para durar três dias, nem que seja para nos fazer sofrer, nem que nos arrebentemos, como tantos se arrebentam em seu nome. Diz o personagem de García Márquez, torturado pelo amor: “Não trocaria por nada neste mundo as delícias do meu desassossego”. Quem mais nos colocaria assim de joelhos? Sem amor, nos resta a paz. Porém uma paz sem gosto.
Seja através de clichês cinematográficos ou de prosa da mais alta qualidade, a verdade universal é que só o amor nos humaniza de fato. Pode-se gostar ou não desta idéia, ela pode ser claustrofóbica para uns e libertária para outros, mas o mundo dá voltas e voltas e chega sempre neste ponto, o de que o amor é mais importante que o dinheiro, que o sexo, que a beleza, ainda que tudo isso seja ótimo também. Mesmo com uma vida recheada de acontecimentos, se estivermos ocos, não veremos muita graça em nada. Poderemos até parecer independentes, inteligentes, modernos, sofisticados... mas só o amor responde às nossas indagações — indagações que podem também ser divertidas, inspiradoras... mas ainda irrespondíveis sem amor. Sem amor, neca. Sem amor, babaus. Sem amor, o resto é consolo.
Vale amor por um cachorro, por um projeto, por si mesmo? Prefiro acreditar que sim, que o amor sem conotação romântica também pode justificar uma existência, que ele pode tornar uma pessoa, senão plena, ao menos leve e alegre, sem necessidade de buscas intermináveis. Mas não é isso que nos dizem livros, filmes, músicas, poemas. Se não amamos alguém, é uma vida vivida sem integralidade. Pode até ser uma vida boa, mas não uma vida que valha a pena ser contada.
Diante desta sentença, fazer o quê: é ele que desejamos, é por ele que procuramos, é nele que queremos tropeçar, nem que seja aos 90 anos, nem que seja quando estivermos secos depois de fazer tanta burrada, nem que seja para durar três dias, nem que seja para nos fazer sofrer, nem que nos arrebentemos, como tantos se arrebentam em seu nome. Diz o personagem de García Márquez, torturado pelo amor: “Não trocaria por nada neste mundo as delícias do meu desassossego”. Quem mais nos colocaria assim de joelhos? Sem amor, nos resta a paz. Porém uma paz sem gosto.
sábado, agosto 27, 2005
The United States of Leland (2003)
Director: Matthew Ryan Hoge
Cast: Ryan Gosling, Kevin Spacey, Don Cheadle, Chris Klein, Jena Malone, Lena Olin, Michelle Williams, Martin Donovan.
Leland: This one is something a friend of mine said to me. "You have to believe that life is more than the sum of its parts, kiddo." I remember it right now to the "kiddo" part. But when I think about what she said, the same thing always comes into my head. What if you can't put the pieces together in the first place?
I think there are two ways you can see the world. You either see the sadness that's behind everything or you choose to keep it all out.
Maybe it makes sense now. Maybe somewhere in all of this there's a reason. Maybe somewhere in all of this there's a why. Maybe somewhere there's that thing that lets you tie it all up with a neat bow and bury it in the backyard. But nothing, not getting angry, not prayers, and not tears, nothing can make something that happened unhappen.
Director: Matthew Ryan Hoge
Cast: Ryan Gosling, Kevin Spacey, Don Cheadle, Chris Klein, Jena Malone, Lena Olin, Michelle Williams, Martin Donovan.
Leland: This one is something a friend of mine said to me. "You have to believe that life is more than the sum of its parts, kiddo." I remember it right now to the "kiddo" part. But when I think about what she said, the same thing always comes into my head. What if you can't put the pieces together in the first place?
I think there are two ways you can see the world. You either see the sadness that's behind everything or you choose to keep it all out.
Maybe it makes sense now. Maybe somewhere in all of this there's a reason. Maybe somewhere in all of this there's a why. Maybe somewhere there's that thing that lets you tie it all up with a neat bow and bury it in the backyard. But nothing, not getting angry, not prayers, and not tears, nothing can make something that happened unhappen.
segunda-feira, agosto 22, 2005
Querido amigo
Faz algum tempo que não recebo notícias suas, por isso e também por uma grande necessidade de desabafar, te escrevo hoje.Venho sentindo uma enorme angústia no peito, às vezes parece que vou sufocar ou cair no choro. Às vezes, tenho vontade de chutar tudo que está ao meu alcance. Estarei perdendo a razão? Ainda não, pois consigo cumprimentar as pessoas nas ruas e seguir a rotina, mecânicamente. Mas por dentro, alguma coisa morreu ou está adormecida, não sei bem. Me impressiona como qualquer coisa me irrita nesses dias. Tudo é demais. O sol forte, a buzina dos carros,o som vindo da tv... a comida não desce bem. Sabe quando você chega numa encruzilhada e não consegue decidir que rumo tomar? Assim tem sido minha vida e parece que me coloquei numa situação da qual não consigo sair.Estou cansada de brigas, acho que conseguiria viver sem amor mas não sob eterno conflito.
Foi bom entrar no carro e pegar a estrada, somente eu e Bia. Deu uma certa sensação de liberdade que não durou. Logo estávamos no Rio e de novo aquela sensação estranha de que algo está errado. O comportamento de Bia por vezes também me espanta.Tudo isso deve está refletindo nela.Sim, com toda certeza. I surely need some advice. Não estou te contando tudo aqui mas minha cabeça não anda muito boa. Um abraço!
Faz algum tempo que não recebo notícias suas, por isso e também por uma grande necessidade de desabafar, te escrevo hoje.Venho sentindo uma enorme angústia no peito, às vezes parece que vou sufocar ou cair no choro. Às vezes, tenho vontade de chutar tudo que está ao meu alcance. Estarei perdendo a razão? Ainda não, pois consigo cumprimentar as pessoas nas ruas e seguir a rotina, mecânicamente. Mas por dentro, alguma coisa morreu ou está adormecida, não sei bem. Me impressiona como qualquer coisa me irrita nesses dias. Tudo é demais. O sol forte, a buzina dos carros,o som vindo da tv... a comida não desce bem. Sabe quando você chega numa encruzilhada e não consegue decidir que rumo tomar? Assim tem sido minha vida e parece que me coloquei numa situação da qual não consigo sair.Estou cansada de brigas, acho que conseguiria viver sem amor mas não sob eterno conflito.
Foi bom entrar no carro e pegar a estrada, somente eu e Bia. Deu uma certa sensação de liberdade que não durou. Logo estávamos no Rio e de novo aquela sensação estranha de que algo está errado. O comportamento de Bia por vezes também me espanta.Tudo isso deve está refletindo nela.Sim, com toda certeza. I surely need some advice. Não estou te contando tudo aqui mas minha cabeça não anda muito boa. Um abraço!
sexta-feira, agosto 12, 2005
Nine Black Alps
Ten out of ten for a race already run
Bleeding the world cause you can't figure out what's wrong
So come back down from your daydream high
Lost for words when you sympathize
There's a million ways to believe you tried
Well I'm
Unsatisfied
Unsatisfied
Just sick and tired of all I've tried
Unsatisfied
So long since the one lit up your life
So long since you heard from the world outside
Turn yourself into part of the plan
Knock you low, find out where you stand
There's a million ways to believe you can
Well I'm
unsatisfied
Unsatisfied
Just sick and tired of all I've tried
Unsatisfied
Should look where you're going
Or where you're gonna hide
Should be feeling something
Of another life
Unsatisfied
Unsatisfied
Unsatisfied
So why'd you wanna hide every little lie?
Keeps it inside
Ten out of ten for a race already run
Bleeding the world cause you can't figure out what's wrong
So come back down from your daydream high
Lost for words when you sympathize
There's a million ways to believe you tried
Well I'm
Unsatisfied
Unsatisfied
Just sick and tired of all I've tried
Unsatisfied
So long since the one lit up your life
So long since you heard from the world outside
Turn yourself into part of the plan
Knock you low, find out where you stand
There's a million ways to believe you can
Well I'm
unsatisfied
Unsatisfied
Just sick and tired of all I've tried
Unsatisfied
Should look where you're going
Or where you're gonna hide
Should be feeling something
Of another life
Unsatisfied
Unsatisfied
Unsatisfied
So why'd you wanna hide every little lie?
Keeps it inside
terça-feira, agosto 02, 2005
Chère Lina,
27.07.2005 | Chegamos a Paris há três anos. Você não falava uma palavra de francês. Nem o seu sotaque tinha se firmado, já que vivera um ano em São Paulo e quase dois no Rio. A mudança não a assustou nem um pouco. Você tinha menos de três anos e gostou da informação de que Paris estava cheia de carrosséis.
Chegamos num domingo. Nosso primeiro passeio foi a Montmartre, onde sabíamos que havia um carrossel permanente. Nossa primeira providência prática foi ir à Samaritaine, no dia seguinte, comprar um carrinho-de-bebê. Lá aprendemos juntos como é carro-de-bebê em francês, poussette. Aproveitei e te comprei dois bonequinhos, um príncipe e uma princesa. Também viemos a aprender a tradução de “carrossel”, manège. Você andou em dezenas de carrosséis em Paris. O da Place d’Italie, o das Tuilleries, o do Hôtel de Ville, o do Jardin du Luxembourg e sobretudo o do Jardins des Plantes, com animais extintos, em frente à sua escola. Um euro, uma volta.
Suas aulas começaram na quinta-feira seguinte. Você era a única que não falava francês na classe de vinte-e-cinco crianças da Petite Section de la Maternelle da escola da rue Buffon. À noite, em casa, quando alguma coisa caiu no chão, você disse a sua primeira expressão em francês, que certamente ouvira na escola, naquele dia: Oh la la!
Escola pública, cujas aulas começavam às oito e meia da manhã e terminavam às quatro e meia da tarde. Você nunca se sentiu à margem nem se queixou de isolamento. Ao contrário. Sempre quis ir à escola. Eu ficava imaginando se, de supetão, me botassem numa classe com vinte-e-cinco búlgaros, qual seria a minha reação. Acho que não gostaria.
Aos poucos, você foi entendendo o que falavam, e se fazia compreender. Sua primeira professora, Noëlle, nos contou que sabia o que queria dizer “molhado” em português. Foi a primeira e única palavra em português que Noëlle aprendeu. Em contrapartida, rapidamente você começou a falar bonjour, merci, au revoir. Hoje, você brinca e sonha em francês. Corrige a minha pronúncia. Faz trocadilhos e jogos de palavras. Usa expressões e gírias. P’tit dèj em vez de petit déjeuner (café-da-manhã), cap no lugar de capable (capaz). Ficou com dois nomes, Lina e Liná. Os franceses pensam que você é francesa.
Jamais vi um processo de aprendizagem tão fluido, rápido e eficaz. Sim, sei que com a maioria das crianças acontece a mesma coisa. Ainda assim, me espanta não só a facilidade mas a alegria com que você adquiriu o seu segundo idioma. O seu temperamento, além da sua inteligência, talvez tenham a ver. Há também a curiosidade e o afeto de seus coleguinhas. De Esther, que, um pouco maior que você, te protegeu e ajudou nos primeiros tempos. E houve o empenho e a capacidade de suas maîtresses, Marie-Hélène, Violeine e Cécilia, além de Noëlle, e das diréctrices, madames Goirand e Anner.
3, rue de L’Essai. Nosso endereço. No Cinquième. Uma ruazinha de uns cem metros, começando no Boulevard Saint-Marcel e terminando na rue Poliveau. “Essai” porque numa rua paralela, a Geoffrey Saint-Hilaire, no tempo de Luiz XIV, havia um mercado de cavalos. Os compradores iam experimentá-los (faire l’essai) no terreno ao lado.
Digitávamos o código, 61A84, a porta fazia um cléc, destrancava, e entrávamos no saguão. Víamos, à direita, se não havia correspondência na nossa caixa de correio. Abríamos a outra porta interna, virávamos à esquerda e subíamos o lance de escadas até o primeiro andar. À direita, a porta vermelha-escuro do nosso apartamento, com seu capacho em forma de cachorro, que você chamava de petit chien e insistia para que não pisássemos no rosto dele.
Dentro, logo à direita, ficava o toilete. À esquerda, os cabides onde pendurávamos os seus casacos. Seguindo no corredor, à direita ficava a pequena cozinha, com a pia, o fogão, a máquina de lavar, a mesinha e o pequeno armário. Ali passei várias horas. Não tivemos empregada e uma das minhas funções domésticas era lavar louça. Logo fui coroado Roi de la Vaisselle.
Ao lado da cozinha ficava o seu quarto. Você dormia na cama da esquerda, sempre com o seu macaquinho de estimação. Ali, todas as noites, você ouviu histórias de princesas, de fadas, de feiticeiras, de heróis, de seres fantásticos. Cendrillon, La Belle au Bois Dormant, Achiles, Ulisses, La Belle et la Bête, Raiponce, Hélène, Athéne, Blanche Neige, Jason, Les Argonautes. Os irmãos Grimm, Perrault, Homero, mitologia, contos populares, folclore.
No fim do corredor ficava o banheiro, com a pia e a banheira. Ao lado esquerdo, o meu quarto-escritório. Na sala ao lado ficava a mesa de almoço, o sofá e a pequena televisão. Apartamento antigo, com lareira na sala e nos dois quartos. Na lareira da sala montamos o seu castelo de madeira, onde você botou todos os seus personagens. Ao príncipe e à princesa, acrescentamos o rei, a rainha, a bruxa, outra princesa, o cavaleiro, o cavalo. Você passava horas na frente da lareira com os bonecos, imitando vozes, inventando histórias.
As janelas da sala e do meu quarto davam para a rua, onde poucos carros passavam, apesar de, à esquerda, haver uma garagem. O seu quarto e a cozinha davam para o pátio interno. Descíamos lá para jogar o lixo na poubelle. Cumprimentávamos e trocávamos algumas palavras com os vizinhos: o velhinho meio surdo que sempre falava que ia esfriar; a moça do térreo, com um novo namorado a cada encontro; a senhora da porta em frente, que veio do Irã e trabalhava na Printemps do centro comercial da Place d’Italie; o casal de jovens que ficava em frente à sua janela; o menino que subia a escada de patins; o casal de gordões que morava em cima do nosso apartamento, e felizmente só marchava a passos pesados e apressados na hora em que acordávamos, sete e meia da manhã.
Você plantou uma muda de morangueiro no jardim do pátio. Durante duas primaveras nos regalamos com os teus moranguinhos.
A tua, a nossa vida, transcorriam entre o Sena, o Jardin des Plantes, a rue Mouffetard, a Grande Mesquita e a Place d’Italie. Dentro desses limites ficavam a casa, escola, a biblioteca, nossos bares e restaurantes, nossos cinemas e estações de metrô, nossas padarias e mercados, nossos amigos, a tua escola de música e a de balé, ambas da Prefeitura.
Nesses marcos, os nossos rituais. O café-da-manhã do sábado, no Baratin, no Poliveau ou no Le Sympathique, onde você pedia chocolate e pão com manteiga, e falava sem parar enquanto eu dava uma olhada no jornal. Eu logo desistia da leitura: nenhuma notícia valia os teus casos. O poulet de télé comprado no açougue nas manhãs de domingo, depois do cinema.
A barbearia, a mais antiga do bairro, na rue Daubenton, onde cortávamos o cabelo. Você, com o barbeiro baixinho e de cavanhaque. Eu, com o gordão bigodudo. Barbearia tradicional, de profissionais habilidosos no uso da navalha e das tesouras. Quantas vezes fomos lá? Dezenas.
O baile da rue Mouffetard, que logo virou “La Mouff”, onde dançamos, escutamos e cantamos velhas canções, acompanhadas pelo acordeon do senhor de boina e cabelos brancos. Compramos então um disco e não paramos de escutar e cantar “La mer”, “Au lycée Papillon”, “Un jour mon prince viendra”, “Le temps des cérises”, “Douce France”, “Lily Marlène”, “Papa n’a pas voulu”, “Je ne suis pas bien portant".
Não ficamos só no nosso bairro. Viramos Paris de cabeça para baixo. De metrô, ônibus e a pé. Em piqueniques, caminhadas, visitas. Acho que a lista dos teus passeios preferidos incluiria a catedral de Notre Dame, para ver os relevos atrás do altar, em madeira, contando cenas da vida de Jesus.
E o Bois de Vincennes, onde você foi dezenas de vezes, com a gente, com a escola e com a turma do Centre des Loisirs, onde você ficava nas quartas-feiras.
E o Museu d’Orsay, onde estão, no último andar, os quadros de Monet e Van Gogh.
E o Sena, entre as pontes de Austerlitz e Neuf, seja à bordo do Bateaubus ou andando pela margem esquerda.
E o Jardin du Luxembourg, onde você via o teatrinho do Guignol, andava no carrossel, passeava de pônei e voava na balança.
E o Opéra Garnier, onde vimos “Giselle”, “La Belle au Bois Dormant” e “Carmen”.
E a Place des Vosges, onde no verão da canicule você tomou banho peladinha na fonte.
E o Jardin des Tuilleries, também no verão, para ver Paris lá de cima, da roda-gigante, pular na cama-elástica e pescar patinhos de plástico.
E as piscinas, mais a Jean Taris que a Pontoise, cuja água era mais fria.
E o Train Bleu, onde comemoramos sempre o aniversário da mamãe, mais pelo ambiente do que propriamente pela comida.
E o Institut du Monde Arabe, onde você teve uma aula sobre os quadros de Matisse no Marrocos e copiou um deles.
Dias depois, aor irmos de ônibus para Saint-Germain, você nos contou como foi o atelier Matisse au Maroc. Contou com tantas minúcias e detalhes, com tal objetividade, que tive medo que você viesse a ser jornalista. Ainda bem que você disse que quer ser princesa, ou bailarina, ou poeta, ou ilustradora, ou padeira.
Esses lugares são muito íntimos, demasiadamente nossos, para serem também Paris.
***
Não ficamos só em Paris.
Fomos à Savóia, onde fizemos guerra de neve em Annecy e vimos a catedral rosa de Strasbourg.
Ao Luberon, com seus campos de lavanda, seus vales suaves, seus delicados vilarejos .
A Marselha, onde visitamos a ilha-prisão do Conde de Monte Cristo.
À Bretanha, onde choveu o tempo todo e comemos galettes e crêpes até enjoarmos.
Aos Alpes, onde contemplamos marmotas e picos gelados.
À Normandia, onde escureceu quase à meia-noite.
Ao Périgord, com suas grutas, castelos e pinturas pré-históricas.
À Córsega, onde tomamos banho de rio e o céu tinha infinitas estrelas.
***
Não ficamos só na França.
Fomos à Croácia, onde visitamos a Gruta Azul e andamos nas ruas de mármore de Dubrovnik.
Não levamos para lá a poussette. Era fogo te carregar no colo no calor do verão. Você andava direitinho, mas às vezes cansava. Te contei que o marechal Tito, um antigo presidente da Croácia, proibira os pais de levar as crianças no colo. Só os bebês eram autorizados. Assim que viam pais com crianças no colo, os guardas intervinham. Você acreditou. E passou a andar o tempo todo. Quando você não aguentava mais, te pegávamos no colo. Apreensiva, você vigiava. Assim que um policial aparecia, voltava para o chão. De retorno à França, inventei que Jacques Chirac tinha feito uma lei igual à do marechal Tito. Nunca mais precisamos da poussette, que foi dada à Jeanne, a irmãzinha do Rémi. Está com ela até hoje.
Fomos a Veneza, aos seus canais, às suas igrejas, à laguna, à Academia, a Rialto, à praça de San Marco, onde os pombos te atacaram.
Fomos à Islândia. Tomamos banho de piscina sob a neve. Nadamos na Lagoa Azul. Vimos as cachoeiras congeladas. Você riu à beça quando escorreguei e caí ao lado de um gêiser.
Em busca do frio, das estrelas e da neve, fomos também à Lapônia. Tombamos do trenó de huskies. Não conseguimos pescar nada no buraco de gelo. Vimos campos imaculados de neve, pacatas renas, um iglu que dava num labirinto, um lago congelado, florestas de pinheiros imóveis, a pequena aurora boreal, o rubro amanhecer – et tous ces moments se perdront, dans l’oubli, comme les larmes dans la pluie..
Paris era o nosso ponto de retorno, o teu centro seguro, a tua vida verdadeira. A bela Paris. A cidade mais linda do mundo. A cidade que é obra humana. A cidade onde a beleza foi conquistada, construída e preservada. A cidade das grandes vistas. Dos monumentos gloriosos. A cidade cheia de história, e tão viva, tão dinâmica.
Em Paris, ma petite, você aprendeu o lento revolver das estações. Cada uma delas a mostrar uma cidade diferente. As tuas preferidas eram a primavera, com sua flores e folhas verdejantes, com o casaco finalmente deixado em casa, junto com o gorro, as luvas, a meia-calça de lã, o cachecol; e o inverno, com seus dias curtos, o vento, o cinza, céu baixo, o frio. Mas você amava também o outono, o demorado cair das folhas do Jardins des Plantes, os corvos e pássaros desaparecendo.
Em Paris, você aprendeu a arte da amizade. Joseph, Anton, Emma, Naama, Louisa, Timo, Esther, Jasmina, Pierre, Marie, Chloé, Nissim. No fim, até da Andréa você gostou. Queria convidá-la para ir em casa. A Andréa que você achava uma bruxa, e bolou mil planos para se livrar dela. Com eles você brincou, jogou, conversou, discutiu. Todos eles te amaram e a todos você amou.
Em Paris você teve o seu primeiro amor.
Rémi. Rémi Turquier. Um menininho francês: magricelo, branquinho, de óculos, sempre despenteado, tímido, inteligente. Vocês passaram três anos na mesma classe. Na Petite Section, vocês tinham direito a uma sesta depois do almoço. Ficavam em beliches vizinhos. Começaram a se contar histórias. Depois, filmes imaginários. Depois, inventaram máquinas fantásticas. Ficaram amigos. Os melhores amigos. Namorados, amoureux. Não namorados de brincadeirinha, por pressão do grupo. Vocês eram muito pequenos, tinham três anos, para se dedicarem a essas bobagens.
Na Moyenne e na Grande Sections, continuaram juntos. Lado a lado na classe, no recreio, na volta da escola, em passeios, em visitas à casa de um e outro, em festas de aniversário, na viagem à colônia de férias. As professoras, os colegas, os pais dos colegas, nossos amigos e conhecidos, todos diziam: eles formam um par, um casal, são namorados. Vocês se viam como namorados. Monsieur Paul, nosso marchand aux journaux, ouviu você falar do Rémi e perguntou se ele era seu melhor amigo. “Mais non, c’est mon amoureux!”, você respondeu. De mãos dadas, lá iam vocês, na nossa frente, na rua, andando e falando sem parar: patati e patata e patati e patata.
Quando você via algo interessante, ou um bom filme, ou ouvia uma história legal, a sua primeira reação era exclamar: “Preciso trazer o Rémi aqui!”, “É preciso, absolutamente, convidar o Rémi para ver esse filme!”, “Preciso contar isso ao Rémi!”
Nas viagens, você procurava folhas, flores e gravetos para levar ao Rémi. Na Islândia, pegou uma pedra em forma de celular e nos avisou: “estou telefonando para o Rémi”. Você deu um avião, um jogo de memória, desenhos e pinturas para ele. Ele te deu um saco de avelãs que colheu na casa dos avós, um anel com um golfinho e várias fivelinhas de cabelo. Vocês se amavam, ma chérie.
Por isso, tiveram os seus percalços. Passaram alguns dias cabisbaixos. Você nos disse que o Rémi não te amava mais. E o Rémi contou ao avô que a Liná não o amava mais. Depois, voltaram à alegria de sempre. Ao te esclarecer o sentido da palavra jalousie, ciúme, você me disse: o Rémi teve duas crises de ciúme. Numa, você estava de mãos dadas com o Joseph. O Rémi se encolerizou, berrou, tentou bater no Joseph e em você. No dia seguinte, voltaram à alegria de sempre. Noutra vez, você chorou porque o Rémi estava de mãos dadas com a Emma. Horas depois, voltaram à alegria de sempre.
Todos os teus problemas em Paris – os joelhos esfolados, os tombos, os resfriados, as briguinhas com os colegas, o prato de legumes, a irritação proveniente do cansaço, a teimosia – todos foram resolvidos, na média, em dez minutos.
Como separar Liná e Rémi, duas crianças apaixonadas de cinco anos? Como se separar de Paris? Ficamos preocupados, nós, os pais de Rémi, Natalie e Serge, os avós dele, os nossos amigos. Quando vinha o assunto da volta ao Brasil, você dizia que queria ficar em Paris. E falava de Rémi. Uma vez, brincando em casa, você disse a ele, muito séria: Tu va me manquer, Rémi, tu va beaucoup me manquer.
Há um mês, vocês passaram um sábado juntos. Foram à piscina Jean Taris com a Flavia. Se divertiram até ficar com os lábios roxos de frio. Fui encontrar vocês na sorveteria em frente à igreja de Saint-Médard. Você me disse, orgulhosa: “Veja como ele está penteadinho! Fui eu que o penteei”. Em casa, brincaram até tarde. Cada um na sua cama, ouvimos o ronronar, patati, patata, até que exaustos, caíram no sono. No dia seguinte, fomos levar Rémi até a casa dele, na rue de la Clef. Vocês ficaram tristes. Já na porta, na despedida, você começou a chorar, e foi chorando pela rua. Depois, Natalie contou que Rémi passou o resto do dia silencioso e arredio.
Cada um reage de uma maneira à cerimônia do adeus. Frédéric, o garçon do Baratin (que uma manhã, quando cheguei atrasado e com a cara amarfanhada para o café, me deu dois comprimidos para ressaca), disse: merde! Monsieur Paul perguntou, desolado, à mulher: “Mas como eu não vou ver Liná crescer?” Eles te deram três bonequinhas e uma revista de presente. Soria, a melhor amiga de mamãe, evitou uma despedida formal. Receio de chorar, acho. Monsieur Bonbon, do Austerlitz, te deu um saco de balas e pirulitos. Monsieur André, do Poliveau, parou de me cobrar o café e me chamou para um copo de vinho. Serge e Natalie nos convidaram para um piquenique. Anton e seus pais, Sophie, Abdel, Louisa e Timo também foram, além de Jeanne e Rémi.
Claudine e Hubert nos chamaram para um almoço de domingo, num restaurante chinês do Treizième. Keiko e Patrice também foram. As quatro crianças estavam lá. Era a mesma turma com a qual passávamos o domingo de Páscoa, numa casa de subúrbio à beira do Sena. Chegamos debaixo de tempestade. Patrice fez a sua hilariante imitação de Chirac. Na saída, estava sol, passeamos pela Butte-aux-Cailles. Keiko nos deu uma gravura caligráfica japonesa.
Às vezes, no entanto, eu te pegava desanimada. Ou pensativa. Às vezes, você me abraçava muito, e forte. Às vezes eu sentia que você estava triste, mesmo que não soubesse o que era a tristeza.
Te ensinei a Valsa da Despedida. Passamos a cantá-la em francês:
Faut-il nous quitter sans espoir
Sans espoir de retour?
Faut-il nous quitter sans espoir
De nous revoir un jour?
Ce n'est qu'un au revoir, mes frères,
Ce n'est qu'un au revoir!
Oui, nous nous rev’rons, mes frères,
Ce n'est qu'un au revoir!
E em português:
Adeus, amor, eu vou partir
Ouço ao longe um clarim
Mas onde eu for irei sentir
Os teus passos junto a mim
Estando em luta, estando a sós
Ouvirei a tua voz
A luz que brilha em teu olhar
A certeza me deu
De que ninguém pode afastar
O meu coração do teu
No céu, na terra, onde for
Viverá o nosso amor
De vez em quando, eu trocava o mes frères, e o “amor” do primeiro verso, por “Paris” e “Rémi”. Eu queria te ajudar, queria nos consolar. Você sorria. O seu sorriso maroto.
Vimos Rémi pela última vez nas Arènes de Lutèces. Vocês brincaram. Retomaram um caminho secreto, que dava no “ponto de vista” – um olho com um ponto no meio, que Rémi desenhara dias antes numa pedra. O tempo passou. Precisávamos ir embora. Mas você queria mais um jogo, mais uma brincadeira, mais alguns minutos, uns poucos instantes, um finzinho. Mas também queria, eu sei, ficar com Rémi. Para sempre. Você saiu chorando do parque. Estava sentida. Passaram os dez minutos e você voltou a sorrir. Estava novamente animada quando comeu um hamburguer na rue des Écoles.
Eu, não. Eu estava com o coração engruvinhado. Eu tinha um monstro na garganta. Eu estava moído pelo remorso. Eu pensava no tempo, esse bicho que anda e anda, pensava na máquina do mundo. Eu, avaliando o que perdera, seguia vagaroso, as mãos pensas.
***
Escrevo essa carta, minha filha, que um dia você lerá, para dizer que, contra toda evidência, acredito que Paris continuará contigo. O esquecimento, bem sei, é inexorável. Mas a memória também. Uma certa Paris continuará a viver dentro de você. Uma imagem da cidade, ainda que fugaz e esmaecida, restará na tua lembrança. A figura fugidia do amor e da felicidade.
Bisou,
Papa
Chegamos num domingo. Nosso primeiro passeio foi a Montmartre, onde sabíamos que havia um carrossel permanente. Nossa primeira providência prática foi ir à Samaritaine, no dia seguinte, comprar um carrinho-de-bebê. Lá aprendemos juntos como é carro-de-bebê em francês, poussette. Aproveitei e te comprei dois bonequinhos, um príncipe e uma princesa. Também viemos a aprender a tradução de “carrossel”, manège. Você andou em dezenas de carrosséis em Paris. O da Place d’Italie, o das Tuilleries, o do Hôtel de Ville, o do Jardin du Luxembourg e sobretudo o do Jardins des Plantes, com animais extintos, em frente à sua escola. Um euro, uma volta.
Suas aulas começaram na quinta-feira seguinte. Você era a única que não falava francês na classe de vinte-e-cinco crianças da Petite Section de la Maternelle da escola da rue Buffon. À noite, em casa, quando alguma coisa caiu no chão, você disse a sua primeira expressão em francês, que certamente ouvira na escola, naquele dia: Oh la la!
Escola pública, cujas aulas começavam às oito e meia da manhã e terminavam às quatro e meia da tarde. Você nunca se sentiu à margem nem se queixou de isolamento. Ao contrário. Sempre quis ir à escola. Eu ficava imaginando se, de supetão, me botassem numa classe com vinte-e-cinco búlgaros, qual seria a minha reação. Acho que não gostaria.
Aos poucos, você foi entendendo o que falavam, e se fazia compreender. Sua primeira professora, Noëlle, nos contou que sabia o que queria dizer “molhado” em português. Foi a primeira e única palavra em português que Noëlle aprendeu. Em contrapartida, rapidamente você começou a falar bonjour, merci, au revoir. Hoje, você brinca e sonha em francês. Corrige a minha pronúncia. Faz trocadilhos e jogos de palavras. Usa expressões e gírias. P’tit dèj em vez de petit déjeuner (café-da-manhã), cap no lugar de capable (capaz). Ficou com dois nomes, Lina e Liná. Os franceses pensam que você é francesa.
Jamais vi um processo de aprendizagem tão fluido, rápido e eficaz. Sim, sei que com a maioria das crianças acontece a mesma coisa. Ainda assim, me espanta não só a facilidade mas a alegria com que você adquiriu o seu segundo idioma. O seu temperamento, além da sua inteligência, talvez tenham a ver. Há também a curiosidade e o afeto de seus coleguinhas. De Esther, que, um pouco maior que você, te protegeu e ajudou nos primeiros tempos. E houve o empenho e a capacidade de suas maîtresses, Marie-Hélène, Violeine e Cécilia, além de Noëlle, e das diréctrices, madames Goirand e Anner.
3, rue de L’Essai. Nosso endereço. No Cinquième. Uma ruazinha de uns cem metros, começando no Boulevard Saint-Marcel e terminando na rue Poliveau. “Essai” porque numa rua paralela, a Geoffrey Saint-Hilaire, no tempo de Luiz XIV, havia um mercado de cavalos. Os compradores iam experimentá-los (faire l’essai) no terreno ao lado.
Digitávamos o código, 61A84, a porta fazia um cléc, destrancava, e entrávamos no saguão. Víamos, à direita, se não havia correspondência na nossa caixa de correio. Abríamos a outra porta interna, virávamos à esquerda e subíamos o lance de escadas até o primeiro andar. À direita, a porta vermelha-escuro do nosso apartamento, com seu capacho em forma de cachorro, que você chamava de petit chien e insistia para que não pisássemos no rosto dele.
Dentro, logo à direita, ficava o toilete. À esquerda, os cabides onde pendurávamos os seus casacos. Seguindo no corredor, à direita ficava a pequena cozinha, com a pia, o fogão, a máquina de lavar, a mesinha e o pequeno armário. Ali passei várias horas. Não tivemos empregada e uma das minhas funções domésticas era lavar louça. Logo fui coroado Roi de la Vaisselle.
Ao lado da cozinha ficava o seu quarto. Você dormia na cama da esquerda, sempre com o seu macaquinho de estimação. Ali, todas as noites, você ouviu histórias de princesas, de fadas, de feiticeiras, de heróis, de seres fantásticos. Cendrillon, La Belle au Bois Dormant, Achiles, Ulisses, La Belle et la Bête, Raiponce, Hélène, Athéne, Blanche Neige, Jason, Les Argonautes. Os irmãos Grimm, Perrault, Homero, mitologia, contos populares, folclore.
No fim do corredor ficava o banheiro, com a pia e a banheira. Ao lado esquerdo, o meu quarto-escritório. Na sala ao lado ficava a mesa de almoço, o sofá e a pequena televisão. Apartamento antigo, com lareira na sala e nos dois quartos. Na lareira da sala montamos o seu castelo de madeira, onde você botou todos os seus personagens. Ao príncipe e à princesa, acrescentamos o rei, a rainha, a bruxa, outra princesa, o cavaleiro, o cavalo. Você passava horas na frente da lareira com os bonecos, imitando vozes, inventando histórias.
As janelas da sala e do meu quarto davam para a rua, onde poucos carros passavam, apesar de, à esquerda, haver uma garagem. O seu quarto e a cozinha davam para o pátio interno. Descíamos lá para jogar o lixo na poubelle. Cumprimentávamos e trocávamos algumas palavras com os vizinhos: o velhinho meio surdo que sempre falava que ia esfriar; a moça do térreo, com um novo namorado a cada encontro; a senhora da porta em frente, que veio do Irã e trabalhava na Printemps do centro comercial da Place d’Italie; o casal de jovens que ficava em frente à sua janela; o menino que subia a escada de patins; o casal de gordões que morava em cima do nosso apartamento, e felizmente só marchava a passos pesados e apressados na hora em que acordávamos, sete e meia da manhã.
Você plantou uma muda de morangueiro no jardim do pátio. Durante duas primaveras nos regalamos com os teus moranguinhos.
A tua, a nossa vida, transcorriam entre o Sena, o Jardin des Plantes, a rue Mouffetard, a Grande Mesquita e a Place d’Italie. Dentro desses limites ficavam a casa, escola, a biblioteca, nossos bares e restaurantes, nossos cinemas e estações de metrô, nossas padarias e mercados, nossos amigos, a tua escola de música e a de balé, ambas da Prefeitura.
Nesses marcos, os nossos rituais. O café-da-manhã do sábado, no Baratin, no Poliveau ou no Le Sympathique, onde você pedia chocolate e pão com manteiga, e falava sem parar enquanto eu dava uma olhada no jornal. Eu logo desistia da leitura: nenhuma notícia valia os teus casos. O poulet de télé comprado no açougue nas manhãs de domingo, depois do cinema.
A barbearia, a mais antiga do bairro, na rue Daubenton, onde cortávamos o cabelo. Você, com o barbeiro baixinho e de cavanhaque. Eu, com o gordão bigodudo. Barbearia tradicional, de profissionais habilidosos no uso da navalha e das tesouras. Quantas vezes fomos lá? Dezenas.
O baile da rue Mouffetard, que logo virou “La Mouff”, onde dançamos, escutamos e cantamos velhas canções, acompanhadas pelo acordeon do senhor de boina e cabelos brancos. Compramos então um disco e não paramos de escutar e cantar “La mer”, “Au lycée Papillon”, “Un jour mon prince viendra”, “Le temps des cérises”, “Douce France”, “Lily Marlène”, “Papa n’a pas voulu”, “Je ne suis pas bien portant".
Não ficamos só no nosso bairro. Viramos Paris de cabeça para baixo. De metrô, ônibus e a pé. Em piqueniques, caminhadas, visitas. Acho que a lista dos teus passeios preferidos incluiria a catedral de Notre Dame, para ver os relevos atrás do altar, em madeira, contando cenas da vida de Jesus.
E o Bois de Vincennes, onde você foi dezenas de vezes, com a gente, com a escola e com a turma do Centre des Loisirs, onde você ficava nas quartas-feiras.
E o Museu d’Orsay, onde estão, no último andar, os quadros de Monet e Van Gogh.
E o Sena, entre as pontes de Austerlitz e Neuf, seja à bordo do Bateaubus ou andando pela margem esquerda.
E o Jardin du Luxembourg, onde você via o teatrinho do Guignol, andava no carrossel, passeava de pônei e voava na balança.
E o Opéra Garnier, onde vimos “Giselle”, “La Belle au Bois Dormant” e “Carmen”.
E a Place des Vosges, onde no verão da canicule você tomou banho peladinha na fonte.
E o Jardin des Tuilleries, também no verão, para ver Paris lá de cima, da roda-gigante, pular na cama-elástica e pescar patinhos de plástico.
E as piscinas, mais a Jean Taris que a Pontoise, cuja água era mais fria.
E o Train Bleu, onde comemoramos sempre o aniversário da mamãe, mais pelo ambiente do que propriamente pela comida.
E o Institut du Monde Arabe, onde você teve uma aula sobre os quadros de Matisse no Marrocos e copiou um deles.
Dias depois, aor irmos de ônibus para Saint-Germain, você nos contou como foi o atelier Matisse au Maroc. Contou com tantas minúcias e detalhes, com tal objetividade, que tive medo que você viesse a ser jornalista. Ainda bem que você disse que quer ser princesa, ou bailarina, ou poeta, ou ilustradora, ou padeira.
Esses lugares são muito íntimos, demasiadamente nossos, para serem também Paris.
***
Não ficamos só em Paris.
Fomos à Savóia, onde fizemos guerra de neve em Annecy e vimos a catedral rosa de Strasbourg.
Ao Luberon, com seus campos de lavanda, seus vales suaves, seus delicados vilarejos .
A Marselha, onde visitamos a ilha-prisão do Conde de Monte Cristo.
À Bretanha, onde choveu o tempo todo e comemos galettes e crêpes até enjoarmos.
Aos Alpes, onde contemplamos marmotas e picos gelados.
À Normandia, onde escureceu quase à meia-noite.
Ao Périgord, com suas grutas, castelos e pinturas pré-históricas.
À Córsega, onde tomamos banho de rio e o céu tinha infinitas estrelas.
***
Não ficamos só na França.
Fomos à Croácia, onde visitamos a Gruta Azul e andamos nas ruas de mármore de Dubrovnik.
Não levamos para lá a poussette. Era fogo te carregar no colo no calor do verão. Você andava direitinho, mas às vezes cansava. Te contei que o marechal Tito, um antigo presidente da Croácia, proibira os pais de levar as crianças no colo. Só os bebês eram autorizados. Assim que viam pais com crianças no colo, os guardas intervinham. Você acreditou. E passou a andar o tempo todo. Quando você não aguentava mais, te pegávamos no colo. Apreensiva, você vigiava. Assim que um policial aparecia, voltava para o chão. De retorno à França, inventei que Jacques Chirac tinha feito uma lei igual à do marechal Tito. Nunca mais precisamos da poussette, que foi dada à Jeanne, a irmãzinha do Rémi. Está com ela até hoje.
Fomos a Veneza, aos seus canais, às suas igrejas, à laguna, à Academia, a Rialto, à praça de San Marco, onde os pombos te atacaram.
Fomos à Islândia. Tomamos banho de piscina sob a neve. Nadamos na Lagoa Azul. Vimos as cachoeiras congeladas. Você riu à beça quando escorreguei e caí ao lado de um gêiser.
Em busca do frio, das estrelas e da neve, fomos também à Lapônia. Tombamos do trenó de huskies. Não conseguimos pescar nada no buraco de gelo. Vimos campos imaculados de neve, pacatas renas, um iglu que dava num labirinto, um lago congelado, florestas de pinheiros imóveis, a pequena aurora boreal, o rubro amanhecer – et tous ces moments se perdront, dans l’oubli, comme les larmes dans la pluie..
Paris era o nosso ponto de retorno, o teu centro seguro, a tua vida verdadeira. A bela Paris. A cidade mais linda do mundo. A cidade que é obra humana. A cidade onde a beleza foi conquistada, construída e preservada. A cidade das grandes vistas. Dos monumentos gloriosos. A cidade cheia de história, e tão viva, tão dinâmica.
Em Paris, ma petite, você aprendeu o lento revolver das estações. Cada uma delas a mostrar uma cidade diferente. As tuas preferidas eram a primavera, com sua flores e folhas verdejantes, com o casaco finalmente deixado em casa, junto com o gorro, as luvas, a meia-calça de lã, o cachecol; e o inverno, com seus dias curtos, o vento, o cinza, céu baixo, o frio. Mas você amava também o outono, o demorado cair das folhas do Jardins des Plantes, os corvos e pássaros desaparecendo.
Em Paris, você aprendeu a arte da amizade. Joseph, Anton, Emma, Naama, Louisa, Timo, Esther, Jasmina, Pierre, Marie, Chloé, Nissim. No fim, até da Andréa você gostou. Queria convidá-la para ir em casa. A Andréa que você achava uma bruxa, e bolou mil planos para se livrar dela. Com eles você brincou, jogou, conversou, discutiu. Todos eles te amaram e a todos você amou.
Em Paris você teve o seu primeiro amor.
Rémi. Rémi Turquier. Um menininho francês: magricelo, branquinho, de óculos, sempre despenteado, tímido, inteligente. Vocês passaram três anos na mesma classe. Na Petite Section, vocês tinham direito a uma sesta depois do almoço. Ficavam em beliches vizinhos. Começaram a se contar histórias. Depois, filmes imaginários. Depois, inventaram máquinas fantásticas. Ficaram amigos. Os melhores amigos. Namorados, amoureux. Não namorados de brincadeirinha, por pressão do grupo. Vocês eram muito pequenos, tinham três anos, para se dedicarem a essas bobagens.
Na Moyenne e na Grande Sections, continuaram juntos. Lado a lado na classe, no recreio, na volta da escola, em passeios, em visitas à casa de um e outro, em festas de aniversário, na viagem à colônia de férias. As professoras, os colegas, os pais dos colegas, nossos amigos e conhecidos, todos diziam: eles formam um par, um casal, são namorados. Vocês se viam como namorados. Monsieur Paul, nosso marchand aux journaux, ouviu você falar do Rémi e perguntou se ele era seu melhor amigo. “Mais non, c’est mon amoureux!”, você respondeu. De mãos dadas, lá iam vocês, na nossa frente, na rua, andando e falando sem parar: patati e patata e patati e patata.
Quando você via algo interessante, ou um bom filme, ou ouvia uma história legal, a sua primeira reação era exclamar: “Preciso trazer o Rémi aqui!”, “É preciso, absolutamente, convidar o Rémi para ver esse filme!”, “Preciso contar isso ao Rémi!”
Nas viagens, você procurava folhas, flores e gravetos para levar ao Rémi. Na Islândia, pegou uma pedra em forma de celular e nos avisou: “estou telefonando para o Rémi”. Você deu um avião, um jogo de memória, desenhos e pinturas para ele. Ele te deu um saco de avelãs que colheu na casa dos avós, um anel com um golfinho e várias fivelinhas de cabelo. Vocês se amavam, ma chérie.
Por isso, tiveram os seus percalços. Passaram alguns dias cabisbaixos. Você nos disse que o Rémi não te amava mais. E o Rémi contou ao avô que a Liná não o amava mais. Depois, voltaram à alegria de sempre. Ao te esclarecer o sentido da palavra jalousie, ciúme, você me disse: o Rémi teve duas crises de ciúme. Numa, você estava de mãos dadas com o Joseph. O Rémi se encolerizou, berrou, tentou bater no Joseph e em você. No dia seguinte, voltaram à alegria de sempre. Noutra vez, você chorou porque o Rémi estava de mãos dadas com a Emma. Horas depois, voltaram à alegria de sempre.
Todos os teus problemas em Paris – os joelhos esfolados, os tombos, os resfriados, as briguinhas com os colegas, o prato de legumes, a irritação proveniente do cansaço, a teimosia – todos foram resolvidos, na média, em dez minutos.
Como separar Liná e Rémi, duas crianças apaixonadas de cinco anos? Como se separar de Paris? Ficamos preocupados, nós, os pais de Rémi, Natalie e Serge, os avós dele, os nossos amigos. Quando vinha o assunto da volta ao Brasil, você dizia que queria ficar em Paris. E falava de Rémi. Uma vez, brincando em casa, você disse a ele, muito séria: Tu va me manquer, Rémi, tu va beaucoup me manquer.
Há um mês, vocês passaram um sábado juntos. Foram à piscina Jean Taris com a Flavia. Se divertiram até ficar com os lábios roxos de frio. Fui encontrar vocês na sorveteria em frente à igreja de Saint-Médard. Você me disse, orgulhosa: “Veja como ele está penteadinho! Fui eu que o penteei”. Em casa, brincaram até tarde. Cada um na sua cama, ouvimos o ronronar, patati, patata, até que exaustos, caíram no sono. No dia seguinte, fomos levar Rémi até a casa dele, na rue de la Clef. Vocês ficaram tristes. Já na porta, na despedida, você começou a chorar, e foi chorando pela rua. Depois, Natalie contou que Rémi passou o resto do dia silencioso e arredio.
Cada um reage de uma maneira à cerimônia do adeus. Frédéric, o garçon do Baratin (que uma manhã, quando cheguei atrasado e com a cara amarfanhada para o café, me deu dois comprimidos para ressaca), disse: merde! Monsieur Paul perguntou, desolado, à mulher: “Mas como eu não vou ver Liná crescer?” Eles te deram três bonequinhas e uma revista de presente. Soria, a melhor amiga de mamãe, evitou uma despedida formal. Receio de chorar, acho. Monsieur Bonbon, do Austerlitz, te deu um saco de balas e pirulitos. Monsieur André, do Poliveau, parou de me cobrar o café e me chamou para um copo de vinho. Serge e Natalie nos convidaram para um piquenique. Anton e seus pais, Sophie, Abdel, Louisa e Timo também foram, além de Jeanne e Rémi.
Claudine e Hubert nos chamaram para um almoço de domingo, num restaurante chinês do Treizième. Keiko e Patrice também foram. As quatro crianças estavam lá. Era a mesma turma com a qual passávamos o domingo de Páscoa, numa casa de subúrbio à beira do Sena. Chegamos debaixo de tempestade. Patrice fez a sua hilariante imitação de Chirac. Na saída, estava sol, passeamos pela Butte-aux-Cailles. Keiko nos deu uma gravura caligráfica japonesa.
Às vezes, no entanto, eu te pegava desanimada. Ou pensativa. Às vezes, você me abraçava muito, e forte. Às vezes eu sentia que você estava triste, mesmo que não soubesse o que era a tristeza.
Te ensinei a Valsa da Despedida. Passamos a cantá-la em francês:
Faut-il nous quitter sans espoir
Sans espoir de retour?
Faut-il nous quitter sans espoir
De nous revoir un jour?
Ce n'est qu'un au revoir, mes frères,
Ce n'est qu'un au revoir!
Oui, nous nous rev’rons, mes frères,
Ce n'est qu'un au revoir!
E em português:
Adeus, amor, eu vou partir
Ouço ao longe um clarim
Mas onde eu for irei sentir
Os teus passos junto a mim
Estando em luta, estando a sós
Ouvirei a tua voz
A luz que brilha em teu olhar
A certeza me deu
De que ninguém pode afastar
O meu coração do teu
No céu, na terra, onde for
Viverá o nosso amor
De vez em quando, eu trocava o mes frères, e o “amor” do primeiro verso, por “Paris” e “Rémi”. Eu queria te ajudar, queria nos consolar. Você sorria. O seu sorriso maroto.
Vimos Rémi pela última vez nas Arènes de Lutèces. Vocês brincaram. Retomaram um caminho secreto, que dava no “ponto de vista” – um olho com um ponto no meio, que Rémi desenhara dias antes numa pedra. O tempo passou. Precisávamos ir embora. Mas você queria mais um jogo, mais uma brincadeira, mais alguns minutos, uns poucos instantes, um finzinho. Mas também queria, eu sei, ficar com Rémi. Para sempre. Você saiu chorando do parque. Estava sentida. Passaram os dez minutos e você voltou a sorrir. Estava novamente animada quando comeu um hamburguer na rue des Écoles.
Eu, não. Eu estava com o coração engruvinhado. Eu tinha um monstro na garganta. Eu estava moído pelo remorso. Eu pensava no tempo, esse bicho que anda e anda, pensava na máquina do mundo. Eu, avaliando o que perdera, seguia vagaroso, as mãos pensas.
***
Escrevo essa carta, minha filha, que um dia você lerá, para dizer que, contra toda evidência, acredito que Paris continuará contigo. O esquecimento, bem sei, é inexorável. Mas a memória também. Uma certa Paris continuará a viver dentro de você. Uma imagem da cidade, ainda que fugaz e esmaecida, restará na tua lembrança. A figura fugidia do amor e da felicidade.
Bisou,
Papa
domingo, julho 24, 2005
Right Where It Belongs
(Trent Reznor)
See the animal in it's cage that you built
Are you sure what side you're on
Better not look him too closely in the eye
Are you sure what side of the glass you are on
See the safety of the life you have built
Everything where it belongs
Feel the hollowness inside of your heart
And it's all
Right where it belongs
[Chorus]
What if everything around you
Isn't quite as it seems
What if all the world you think you know
Is an elaborate dream
And if you look at your reflection
Is it all you wanted to be?
What if you could look right through the cracks
Would you find yourself
Find yourself afraid to see?
What if all the world's inside of your heart
Just creations of your own
Your devils and your gods
All the living and the dead
And you really are alone
You can live in this illusion
You can choose to believe
You keep looking but you can't find the words
Are you hiding in the dreams?
See the animal in it's cage that you built
Are you sure what side you're on
Better not look him too closely in the eye
Are you sure what side of the glass you are on
See the safety of the life you have built
Everything where it belongs
Feel the hollowness inside of your heart
And it's all
Right where it belongs
[Chorus]
What if everything around you
Isn't quite as it seems
What if all the world you think you know
Is an elaborate dream
And if you look at your reflection
Is it all you wanted to be?
What if you could look right through the cracks
Would you find yourself
Find yourself afraid to see?
What if all the world's inside of your heart
Just creations of your own
Your devils and your gods
All the living and the dead
And you really are alone
You can live in this illusion
You can choose to believe
You keep looking but you can't find the words
Are you hiding in the dreams?
sábado, julho 16, 2005
Eu Não sei Dançar
(Alvin L)
Às vezes eu quero chorar
Mas o dia nasce e eu esqueço
Meus olhos se escondem
Onde explodem paixões
E tudo que eu posso te dar
É solidão com vista pro mar
Ou outra coisa p'ra lembrar
Às vezes eu quero demais
E eu nunca sei se eu mereço
Os quartos escuros pulsam
E pedem por nós
E tudo que eu posso te dar
É solidão com vista pro mar
Ou outra coisa p'ra lembrar
Se você quiser eu posso tentar mas
Eu não sei dançar
Tão devagar
Pra te acompanhar...
Às vezes eu quero chorar
Mas o dia nasce e eu esqueço
Meus olhos se escondem
Onde explodem paixões
E tudo que eu posso te dar
É solidão com vista pro mar
Ou outra coisa p'ra lembrar
Às vezes eu quero demais
E eu nunca sei se eu mereço
Os quartos escuros pulsam
E pedem por nós
E tudo que eu posso te dar
É solidão com vista pro mar
Ou outra coisa p'ra lembrar
Se você quiser eu posso tentar mas
Eu não sei dançar
Tão devagar
Pra te acompanhar...
quinta-feira, julho 14, 2005
Imogen Heap _ Hide and Seek
Where are we?
What the hell is going on?
The dust has only just began to fall
Crop circles in the carpet
Sinking, feeling
Spin me around again
And rub my eyes
This can't be happening
When busy streets
Amess with people
Would stop to hold
Their heads heavy
Hide and seek
Trains and sewing machines
All those years
They were here first
Oily marks appear on walls
Where pleasure moments hung before
The takeover
The sweeping insensitivity of this still life
Hide and Seek
Trains and sewing machines (you won't catch me around here)
Blood and Tears
They were here first
Hmm, what'd you say, mmm, that you only meant well?
Well, 'course you did
Hmm, what'd you say, mmm, that it's all for the best
Of course it is
Hmm, what'd you say, mmm, that it's just what we need
You decided this
Hmm, what'd you say, mmm, what did she say?
Ransom notes keep falling out your mouth
Mid-sweet talk, newspaper word cut-outs
Speak no feeling, no I don't believe you
You don't care a bit, you don't care a bit
(Hide and Seek)
What the hell is going on?
The dust has only just began to fall
Crop circles in the carpet
Sinking, feeling
Spin me around again
And rub my eyes
This can't be happening
When busy streets
Amess with people
Would stop to hold
Their heads heavy
Hide and seek
Trains and sewing machines
All those years
They were here first
Oily marks appear on walls
Where pleasure moments hung before
The takeover
The sweeping insensitivity of this still life
Hide and Seek
Trains and sewing machines (you won't catch me around here)
Blood and Tears
They were here first
Hmm, what'd you say, mmm, that you only meant well?
Well, 'course you did
Hmm, what'd you say, mmm, that it's all for the best
Of course it is
Hmm, what'd you say, mmm, that it's just what we need
You decided this
Hmm, what'd you say, mmm, what did she say?
Ransom notes keep falling out your mouth
Mid-sweet talk, newspaper word cut-outs
Speak no feeling, no I don't believe you
You don't care a bit, you don't care a bit
(Hide and Seek)
quinta-feira, julho 07, 2005
Sonetilho de verão
Paulo Henriques Britto
Traído pelas palavras
O mundo não tem conserto.
Meu coração se agonia.
Minha alma se escalavra.
Meu corpo não liga não.
A idéia resiste ao verso,
o verso recusa a rima,
a rima afronta a razão
e a razão desatina.
Desejo manda lembranças.
O poema não deu certo.
A vida não deu em nada.
Não há deus. Não há esperança.
Amanhã deve dar praia.
Traído pelas palavras
O mundo não tem conserto.
Meu coração se agonia.
Minha alma se escalavra.
Meu corpo não liga não.
A idéia resiste ao verso,
o verso recusa a rima,
a rima afronta a razão
e a razão desatina.
Desejo manda lembranças.
O poema não deu certo.
A vida não deu em nada.
Não há deus. Não há esperança.
Amanhã deve dar praia.
terça-feira, julho 05, 2005
Bissexuais são gays enrustidos, aponta pesquisa
Estudo aponta que bissexualidade não é condição estável e definida
Benedict Carey
New York Times
Certas pessoas se sentem atraídas por mulheres; outras por homens. E algumas, se dermos crédito a Sigmund Freud, Alfred Kinsey e milhões de indivíduos que se descrevem como homossexuais, sentem atração pelos dois sexos.
Mas um novo estudo lança dúvidas sobre a existência da bissexualidade, pelo menos em homens.
O estudo, realizado por uma equipe de psicólogos em Chicago e Toronto, apóia aqueles que há muito tempo se mostram céticos com relação à hipótese de que a bissexualidade é uma orientação sexual distinta e estável.
Segundo esses críticos, as pessoas que se dizem bissexuais são geralmente homossexuais, mas são ambivalentes quanto a sua homossexualidade, ou simplesmente enrustidas. "Ou você é gay, ou heterossexual ou está mentido", conforme afirmam alguns gays.
No novo estudo, uma equipe de psicólogos mediu diretamente os padrões de excitação genital em resposta a imagens de homens e mulheres. Os psicólogos descobriram que os homens que se identificaram como bissexuais na verdade se excitavam exclusivamente por um ou outro sexo; na maioria das vezes por outros homens.
O estudo é o maior dentre vários pequenos relatórios que sugerem que os cerca de 1,7% dos homens que se identifica como bissexual demonstra padrões de atração física que diferem substancialmente dos seus desejos professados.
"As pesquisas sobre a orientação sexual têm se baseado quase que inteiramente em relatos pessoais. Mas esta nova pesquisa é um dos poucos bons estudos que utilizam medições fisiológicas", disse Lisa Diamond, professora associada de psicologia e identidade sexual da Universidade de Utah, que não participou do projeto.
"A discrepância entre o que está ocorrendo nas mentes das pessoas e aquilo que se passa em seus corpos é um quebra-cabeça que precisa ser resolvido, e ela faz com que questionemos o que se quer dizer quando se fala sobre desejo", afirmou Diamond. "Tínhamos assumido que todos queriam dizer a mesma coisa, mas aqui temos a evidência de esse não é o caso".
Benedict Carey
New York Times
Certas pessoas se sentem atraídas por mulheres; outras por homens. E algumas, se dermos crédito a Sigmund Freud, Alfred Kinsey e milhões de indivíduos que se descrevem como homossexuais, sentem atração pelos dois sexos.
Mas um novo estudo lança dúvidas sobre a existência da bissexualidade, pelo menos em homens.
O estudo, realizado por uma equipe de psicólogos em Chicago e Toronto, apóia aqueles que há muito tempo se mostram céticos com relação à hipótese de que a bissexualidade é uma orientação sexual distinta e estável.
Segundo esses críticos, as pessoas que se dizem bissexuais são geralmente homossexuais, mas são ambivalentes quanto a sua homossexualidade, ou simplesmente enrustidas. "Ou você é gay, ou heterossexual ou está mentido", conforme afirmam alguns gays.
No novo estudo, uma equipe de psicólogos mediu diretamente os padrões de excitação genital em resposta a imagens de homens e mulheres. Os psicólogos descobriram que os homens que se identificaram como bissexuais na verdade se excitavam exclusivamente por um ou outro sexo; na maioria das vezes por outros homens.
O estudo é o maior dentre vários pequenos relatórios que sugerem que os cerca de 1,7% dos homens que se identifica como bissexual demonstra padrões de atração física que diferem substancialmente dos seus desejos professados.
"As pesquisas sobre a orientação sexual têm se baseado quase que inteiramente em relatos pessoais. Mas esta nova pesquisa é um dos poucos bons estudos que utilizam medições fisiológicas", disse Lisa Diamond, professora associada de psicologia e identidade sexual da Universidade de Utah, que não participou do projeto.
"A discrepância entre o que está ocorrendo nas mentes das pessoas e aquilo que se passa em seus corpos é um quebra-cabeça que precisa ser resolvido, e ela faz com que questionemos o que se quer dizer quando se fala sobre desejo", afirmou Diamond. "Tínhamos assumido que todos queriam dizer a mesma coisa, mas aqui temos a evidência de esse não é o caso".
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